sábado, 9 de maio de 2009

Meu fim e meu começo. - Narrados por mim.

Domingo, cinco de maio, quatro e quarenta e cinco da tarde, praia de Ipanem.. Numa manhã de inverno, num dia abafado como tantos outros na cidade, vi meu corpo estendido cercado de curiosos. Olhei com os olhos de só mais um curioso. Como quem não sabia o que havia se passado, choquei-me com a cena: uma menina jovem, tão linda, com cara de sonho. Lamentei-me, pois tinha tanto futuro pela frente.

Foi de repente. Eu percebi que tudo que havia vivido até então era só causa para todas as metamorfoses que faziam de mim aquele ser amorfo. Que elo a elo, a corrente nos meus pés e pulsos se quebravam. A cada pulsar do meu peito. Beijo a beijo, transa a transa. A cada casa que eu entrava, as coisas mudavam. A cada novo olhar que eu reconhecia as coisas mudavam. Eu mudava. Estava só. A multidão que me cercava era observada pelos nós dos meus dedos, pelo meu pâncreas e umbigo, por cada sorriso meu. Dei os braços pro destino e me atei aos melhores amigos para não sentir dor, nunca. E se sentisse, que neles caísse as lágrimas que pendiam dos meus olhos. E foi assim que me fiz. Num processo desconfigurado de auto-construção, eu nasci.

Aleatoriamente, meus dedos pousados na guitarra criaram as melodias que me expressaram e tocaram aqueles amigos e amores. Sem estudo nem consciência. Sem vontade nem intenção, a minha voz tomou seus rumos. Só. Pronta ou não, disse o que eu não pensei em dizer. Calou o que eu sonhei em gritar. Não fez do mundo um lugar pequeno, mas empenhou-se em ecoar por cada canto do universo. Viu outros mundos e me embarcou em viagens que eu jamais esquecerei. Foi de uma inconsciência que eu nunca saberei explicar.

Sem obrigação, eu caminhei por mim até a escola, encostei nos muros e nas pessoas a minha volta. Dei ouvidos a decanos, padres e freiras. Provei da hóstia e do vinho. Depois, do vinho de novo por muitas outras vezes em ocasiões e quantidades diferentes. Embebi-me de álcool e ardi em chamas quando mais velha. Sonhei acordada, quando nunca havia acordado de fato.

Prometi-me doar minha alma aos poetas que me enterraram em versos ritmados sem o menor sentido, como havia de ser. Coerentes esses homens que escrevem. Sabem da moda das linhas, e combinam as cores das palavras com as dos sentimentos. Erram sempre, mas conscientes de que é no erro e na dor que está a beleza e a comoção. Que os engenheiros tão corretos, vivem de sonhos tão caretas quanto seus quartos.

Expus-me. Muito e sempre. Expus-me aos meninos da escola. Não abri mão das minhas esquisitices e falhei ao tentar ser normal. Às meninas precoces, queimei meu sutiã aos dez, pois não possuía seios e não via sentido naquilo. Assim como não via sentido em tantas outras coisas que queimei nessa vida que vivi. Choquei meus pais, os fiz insanos e contentes muitas vezes. Engavetei alguns passados, como qualquer pessoa, e escolhi para a memória só o que quis e com um toque doce de veludo com mel.

Habitei diferentes quartos, diferentes camas, diferentes corpos. Descobri que a noite não é um momento do dia, mas um lugar distinto e mágico onde tudo se transforma, inclusive eu. Reservei os sonhos para os momentos de compromisso, aulas e provas.

A liberdade só encontrei em um prazer. No mesmo prazer em que se deu a minha libertação de todo esse cosmo confuso que descrevi. Numa prancha sobre quatro rodinhas, eu sobre a prancha, as rodinhas na orla. Deslizando no asfalto escuro e quente.

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