Mãe, você me trouxe pra festa. Agora não quer que eu prove dos canapés, que eu tome coca-cola e dance até cansar. Quer que eu me sente do lado de fora e veja passar as moças bem vestidas, os velhos animados, e as crianças levadas correndo. Quer que eu só sonhe com os beijos dos amantes e renegue o amor que me apetece. Quer ver nos meus olhos o brilho de outros sorrisos que não os meus. E que ao ouvir a música não tenha vontade de dançar. Mãe, eu tenho.
Tenho vontade de participar dessa festa, e coragem para não renunciar a ela. Vou sorrir e beijar com meus lábios, vou provar com o meu paladar e rebolar com meus quadris. Mãe, essa festa não começa sem mim. E agora que você me trouxe até aqui, aproveite comigo. Dance comigo, coma comigo, ria comigo.
Você foi a minha anfitriã e agora é a minha convidada. Convidada de honra. Quem tem o requinte de poder dizer que é mãe da dona da festa. E a dona da festa sou eu. É a minha decoração que será criticada, o meu repertório que fará meus convidados dançarem, ou não, é a minha lista que aproximará de mim os queridos, e os não tão queridos assim.
Quem estará ao meu lado como meu amor também passará pelo meu, e somente pelo meu julgamento. E se você não gostar, e se você não quiser, caberá a mim apenas lamentar. Desejar que a civilidade seja preservada sempre e que haja respeito por aquele que me faz feliz.
O seu lugar à mesa do jantar está reservado ao lado direito da cabeceira onde eu me sento. Ai daquele que ousar toma-lo. O seu espaço em mim é perpétuo e insubstituível, e se algum dia você decidir sair, ficará para sempre aquele lugar vazio.
Eu lhe peço que não saia jamais. Que me permita compartilhar com você o motivo das minhas alegrias e das mais profundas tristezas. Que me motive sempre a ir, para que eu tenha vontade de voltar. Que não me deixe ter medo de você, nunca. E que a gente se apóie mesmo sem ver sentido algum em nossas causas. Tá?
Um beijo enorme, da sua filha que te ama muito.
Gaya Correia.